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MANOELA SAWITSKI, do Rio de Janeiro
O sujeito embarca no Salgado Filho, aterrissa no Santos Dumont e toma um táxi até Copacabana. Depois de instalado no mais charmoso hotel da orla, decide fazer uma expedição pela Avenida Atlântica atraído pelos famosos encantos da "princesinha do mar". Ao passar pelo edifício Palácio Champs-Elysées, nota que um grupo de rapazes avança portaria adentro (o mais desgrenhado deles carrega um violão). Nada de anormal. Segue caminho sem desconfiar que, alguns minutos mais tarde, uma moça de 15 anos chamada Nara Leão abrirá a porta do apartamento de seus pais para João Gilberto, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra e Chico Feitosa. Aliás, mesmo se soubesse quem eram e para onde iam, não ocuparia mais que dez segundos de suas férias com isso. Porque ele está no ano de 1957 e aquela moça e aqueles rapazes não passam de ilustres desconhecidos.
Em breve, no entanto, o tal sujeito, o Rio de Janeiro e boa parte do mundo, inclusive você, ouviria falar muito sobre aquela turma. E continuaria ouvindo e falando mesmo 50 anos depois. É que esses personagens, somados a outros como Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, foram os pais e as mães de uma música que, em 2008, completa meio século: a bossa nova.
O show comemorativo das 50 primaveras bossanovísticas, realizado na Praia de Ipanema, no começo de março, com um público estimado pela organização do evento em 80 mil pessoas, não deixa dúvidas de que ela ainda rende muito assunto. Sua perenidade é confirmada por Márcio Menescal, integrante da banda Bossacucanova, filho e sócio de Roberto Menescal (o mesmo rapaz que ia ao apartamento da Nara) na gravadora Albatroz. O selo se dedica quase integralmente à bossa nova e ao mercado estrangeiro porque, segundo ele, há uma demanda impressionante pelo gênero no exterior. "Eles nos pedem de tudo vertido em bossa, mas uma bossa com roupagem moderna", conta. Atendendo a pedidos, a Albatroz desenvolve projetos como Beatles in Bossa e Elvis in Bossa. Aliás, até o fechamento desta edição, Michael in Bossa (Michael Jackson, é isso mesmo!) e Queen in Bossa estavam na parada dos dez mais baixados no Itunes japonês.
Também não é nem um pouco difícil abrir a página da programação musical de qualquer jornal de grande, média ou pequena circulação do país e encontrar a palavrinha mágica entre os sortidos repertórios do sábado à noite. Aliás, é bem capaz de você estar numa festa de música eletrônica em Rennes, na França, e de repente ouvir a voz de João Gilberto cantarolando Doralice (na versão original, voz, violão e percussão) e ver uma pista de eletromaníacos entrar em delírio. Acha impossível? Pois Márcio Menescal foi testemunha ocular e auditiva do acontecimento, durante o festival Transmusicales. O responsável pela corajosa inserção de Doralice em ambiente aparentemente hostil foi o DJ brasileiro Marcelinho da Lua. A propósito, parceiro de Márcio e de Alexandre Moreira no Bossacucanova. O nome do grupo dispensa maiores explicações.
Se Chega de Saudade representa o marco do lançamento da bossa nova nos anos 50, Revisitando os Clássicos, primeiro disco do Bossacucanova, lançado no final dos anos 90, pode ser considerado o marco inaugural da bossa eletrônica brasileira. Não no Brasil, pois aqui o disco não vingou. Quando Marcelo D2 apresentou o CD a um produtor norte-americano, a coisa foi diferente. O sucesso obrigou o grupo, que tinha se formado num clima de ação entre amigos, a assumir de fato a condição de grupo.
Para Márcio Menescal, que em meados de 80 tocava rock na banda Anticorpos, a modernização do estilo não consiste numa simples demão de verniz sobre um artefato antigo. "A forma de você expressar a música muda com o passar do tempo. A bossa eletrônica é um outro estilo, assim como o blues, o jazz e o rock." O cantor e compositor Paulinho Moska, entretanto, vê a questão sob outra perspectiva. Segundo ele, a bossa foi a tradução do espírito de uma época, a sua expressão está ligada ao seu tempo. "Por mais que se mude o arranjo, ela sempre será uma representação", critica.
Leia a íntegra da reportagem na edição impressa de APLAUSO 92 |
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