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Primeiro capítulo de Olympia, romance inédito de Fausto Wolff
03/08/2005

1

Não há mulher que não sonhe com um mundo perfeito no qual ela possa reinar absoluta enquanto o marido vence do lado de fora. Marileusa, porém, resolveu levar as coisas às mais extremas conseqüências. As coisas poderiam ter dado certo, mas deram errado. Barroso teme saber o porquê do erro e de uma certa forma isso o alivia, se é que tal é possível. Tudo começou como uma brincadeira. Certa noite, depois do jantar, enquanto jogavam Teogonia Ternária, Marileusa, a mulher de Barroso, perguntou-lhe se era possível criar um mundo perfeito. Ele sabia que isso era impossível, pois fugia à subordinação da unidade. Fugia também ao postulado sobre o qual se equilibra o universo, que já resolvera falsas equações como perfeição e poder, eliminando conseqüentemente todas as loucuras inerentes aos conceitos. Barroso tentou explicar isso, mas ela não queria explicação. Queria provocar. Tanto que abriu as coxas sem motivo algum, o que sempre perturbava o marido. Ele desviou sua atenção do sedoso triângulo e tentou concentrar-se enquanto enchia um copo de Witgenstein. Disse-lhe:

– Nada é mais frágil do que a perfeição e o mesmo se dá com o poder. Uma queda e lá se foi a perfeição, um descuido e lá se foi o poder.

– Lá vem você de novo com essa filosofia arcaica.

– Pode ser, garotinha, mas até agora ninguém conseguiu desmentir que a perfeição e o poder são absolutamente nocivos, pois não conseguem atentar para qualquer outra coisa que não eles mesmos.

Marileusa, uma mulher lindíssima de longos cabelos escarlates e olhos violáceos, sorriu e roçou a coxa na perna do marido:

– E não é natural que a perfeição queria se preservar?

– Se pudesse fazer isso sozinha, mas não pode. A conseqüência dessa preservação é o sofrimento, a dor, a miséria, a humilhação dos demais, aqueles obrigados a sustentar o poder e a perfeição. Logo, não vejo como poderia criar um mundo perfeito sobre premissas tão frágeis.

Marileusa limitou-se a suspirar e a jogar as pernas para o alto. Barroso fingiu não ver e continuou:

– Talvez o Albino Pinheiro e o Rei Zulu, que conseguiram dessacralizar o conceito de ordem sem ferir a dinâmica do progresso, tenham capacidade de construir um mundo perfeito que, porém, seria inteiramente decorativo.

Ela fingiu não ter ouvido e foi à cozinha tirar os pratos da mesa. Quando passou pelo marido, ele enfiou-lhe a mão entre as coxas e fizeram amor como quem disputa uma corrida de vida e morte.

Ela fumava um baseado quando voltou ao assunto.

– Meu bem.

– O quê?

– E se você começasse do nada?

– Não existe o nada. O que existe é a ausência e a ausência tem limites materiais.

Ela levantou-se da cama, criou um lago e jogou-se dentro dele. Banhou-se, desfez o lago, enxugou-se e botou as calcinhas. Retrucou: – Ora, a matéria são ilusões que criamos para nosso deleite. O vazio nos confins do quintal, por exemplo.

– O que tem ele?

– É um espaço tão sem gracinha. Poderíamos enfeitá-lo com alguma matéria sem vida e esperar pela vida - disse Marileusa.

– Da sem vida não nasce vida.

– Que bobagem, meu amor - disse ela enquanto retocava a maquiagem no espelho.

– Os fenômenos acabariam por criar algum tipo de vida e esta vida seria a mais

elementar possível. Poderíamos acompanhar seu desenvolvimento até a perfeição.

– O primeiro estágio da perfeição - disse Barroso - é a deterioração. Para que criar algo que sabemos finito de antemão? Barroso tomou mais um gole de Witgenstein.

– Mas seria a nossa criação - disse ela - colocando inquietantes meias negras.

– A cultivaríamos - hesitou um pouco - com...com..amor. É isso mesmo, amor. Precisamos nos precaver contra o tédio. Esses seres que criaremos terão de se desenvolver do nada à perfeição. Quando atingirem esse frágil estágio trataremos de mantê-lo perfeito. Teremos do que nos orgulhar. Algo para mostrar aos amigos durante os jogos de Teogonia Ternária ou Cascatinha.

Barroso foi ao banheiro, de onde perguntou:

– E que matéria colocaríamos naquele vazio?

– Os excrementos de Deus, é claro.

– Lá vem você de novo com essa história de Deus. Não existe Deus. Deus significa poder e poder significa morte e morte significa nada.

– E o nada significa tudo - respondeu Marileusa, teimosa.

– A verdade é que ele apareceu aqui em casa quando não estavas e depois de algum tempo pediu licença e foi até aquele mato, onde defecou uma montanha. Pois é essa montanha que colocaremos nos fundos do quintal onde começa o Infinito.

– Um cocozão?

– Isso mesmo, mas que não permanecerá assim, podes ter certeza.

– Eu lavo as mãos - disse Barroso - pois não quero responsabilidade num evidente fracasso. Vá você mexer com o cocô de Deus! - E depois de uma pausa.

– Como é que alguém pode acreditar no Deus de um Universo que ainda estamos longe de conhecer na sua totalidade? Aliás, como é este teu Deus?

– Uma gracinha - disse Marileusa, enquanto se admirava no espelho. Você devia vê-lo. Fofinho, fofinho. Um velhinho baixinho. Usa um manto branco e anda amparado num cajado. Ele até dormiu aqui em casa.

– O quê? Teu Deus dormiu aqui na minha casa? Espero que, pelo menos, você não tenha sido gentil e feito amor com ele.

– Claro que não. É tão velhinho, barba longa, branca.

– Você nem ofereceu um copo de vinho para ele? - perguntou Barroso, gastando ironia.

– Ofereci, mas ele declinou. Tirou um pozinho branco dum bolso do manto e aspirou pela narina. Sorriu e disse que era um remédio que lhe clareava as idéias. Depois, pediu licença e foi ao quintal. Voltou muito falante. Disse que tinha planos extraordinários para nós.

– Tem certeza de que ele falou para nós? - perguntou Barroso, tentando fingir que a levava a sério.

– Falou. Disse até o teu nome, Barroso. Aliás, Barroso não. Ele falou Barrosão. Devia estar se referindo a essa barriguinha aí - disse Marileusa, fazendo cócegas na barriga do marido.

– Que planos?

– Ele disse que nos observava há muito e que éramos o casal ideal para o que pretendia realizar.

– Sim, mas que planos?

– Disse que me informaria, mas até agora não recebi mensagem alguma. Agora espere aqui e lave os pratos enquanto vou cumprir minha missão.

Barroso não estava a fim de lavar pratos. Entediado, os desmaterializou com um olhar e os substituiu por novos idênticos. Fez um Wolffenbüttel gelado – nada mais do que três pedras – e se dirigiu à janela. Marileusa saiu porta afora. O marido viu quando a mulher levantou a montanha com suas mãozinhas delicadas e jogou-a em direção ao Infinito que, dependendo de onde estamos, pode estar longe ou perto. A montanha viajou à monótona velocidade da luz e Barroso pôde ver quando se transformou em poeira. O cocô do Deus de Marileusa realmente não o impressionou. Mas a idéia de que acabara de testemunhar uma besteira não lhe saiu da cabeça. Decifrou o sonho que tivera naquela noite e viu logo que simplesmente não faria sentido quando decodificado pelo Tempo.


     
 
 
     
 
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