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Ao incorporar o folclore do Sul em suas roupas, na sua atitude e em suas canções, o catarinense Pedro Raymundo se tornou o primeiro astro da música regionalista gaúcha. Se estivesse vivo, ele teria completado 100 anos em 2006
por DANIEL FEIX
"Caros amigos: o antídoto que fará esquecer, pelo menos por bons instantes, as amarguras atuais, chegou não faz muito no Rio. Quem vai querer?"
Parece anúncio de remédio, admite o redator do Diário da Noite (de 28/7/1948). O efeito é o mesmo. "Mas queremos referir-nos a Pedro Raymundo, o gaúcho", o texto esclarece, logo adiante. "Aos que trazem o espírito em brumas, macerado de incertezas, aos que sentem o velho fígado cheio e a ponto de estourar, andando aí num mau humor de espantar gatos, enfim, aos que o passado oprime – a esses sofredores todos recomendamos, vivamente, a audição deste ‘gaúcho alegre do rádio’."
Aos olhos do Brasil, o "gaúcho alegre do rádio" era, antes de qualquer coisa, uma figuraça. Incomum, exótico. Vestia bombachas espalhafatosas, cheias de botões nas costuras laterais, camisa xadrez, tirador franjeado, lenço no pescoço, guaiaca com coldre e acessórios diversos, do revólver e da faca na cintura aos grandes anéis vermelhos e amarelos – tudo para deixar bem claro que ali estava algo novo, diferente. Tocava uma gaita cromática apelidada de "carijó" justamente por conta de seu colorido. Tinha um gingado único, que em certos momentos imitava o movimento e as falas do homem da Campanha – como, por exemplo, o "eira" antes de começar a cantar e o impulso para a frente, inclinando o corpo e apoiando-o sobre a perna direita sempre que fosse preciso enfatizar um trecho da letra ou uma nota musical. Ria e contava causos engraçados, divertindo quem o ouvisse, seja pessoalmente, nos palcos ou nos microfones de rádio. Materializava, nos gestos e na própria imagem, todo o espírito fanfarrão que agradava ao gaúcho do campo – e, a partir dele, a todos que sentiam pelo menos um pouco de identificação com a cultura do Sul. Uma cultura absolutamente desconhecida fora da região do pampa. Até aquele momento.
Quem conhece só seu maior sucesso, Adeus Mariana, quem só ouviu falar dele por ocasião de seu – não muito comentado – centenário, completado recentemente, mal sabe que Pedro Raymundo foi o músico precursor de todos os astros do gauchismo, de Teixeirinha ao Gaúcho da Fronteira, de Borghettinho à Tchê Music. Foi ele quem, vindo do Sul de Santa Catarina, encantou-se com o folclore local e levou-o aos discos, apresentando-o ao restante do Brasil. De um jeito, conforme o Diário da Noite, "folgaz, desabrido, de uma jovialidade incrivelmente contagiante e uma graça sadia".
Leia o texto na íntegra na edição impressa de APLAUSO 78 |
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