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Naira Hofmeister
A sala é retangular, comprida, e está dividida em três cômodos. Tudo impecavelmente no lugar e limpo, apesar dos gatos que circulam pelo local. No centro da mesa de jantar, a gamela tem frutas de verdade: abacaxi, maçãs, bananas. O vaso é de vidro enfeitado e, por baixo da água que alimenta as folhas da espada de São Jorge, é possível identificar uma embalagem de aveia Quaker, que serve como suporte. Há um grande Quixote, de Xico Stockinger, um pouco escondido perto da escada que dá acesso à garagem. Eu preciso fazer um esforço danado para reparar nos detalhes da casa, já que é impossível não se comover com a paleta escura e os traços carregados das telas que adornam as paredes. São dez na sala e retratam emblemáticos ciclistas, carretéis e idiotas. Junto com mais uma meia dúzia (certamente) espalhada pelos demais cômodos da casa, constituem a parte da coleção de mais de 4 mil pinturas de Iberê Camargo que a viúva Maria Coussirat Camargo se permitiu manter na residência, depois que o endereço no bairro Nonoai deixou de ser a sede da fundação que leva o nome do pintor.
Pois às vésperas da comemoração do primeiro aniversário da festejada casa de Iberê, Dona Maria perdeu a maior e provavelmente a mais importante tela da sala: Solidão, o último quadro que Iberê pintou, em 1994, abre a mostra Um Ensaio Visual, que ocupa os três andares da Fundação Iberê Camargo (FIC) até agosto de 2009.
“Essa não está nem terminada. Lógico que tem um clima, mas se ele continuasse, não deixaria assim. Vê-se que falta tinta”, observa Dona Maria, vagarosa nas palavras, mas ágil no raciocínio aos 94 anos.
De fato, Solidão destoa das demais criações de Iberê que estão na sala da casa: tem tons claros, azuis e alaranjados, e a camada de tinta é bastante fina. Coincidência que justo a criação que precedeu sua morte não traga os tradicionais negros e as generosas pinceladas que caracterizaram as séries tristes do pintor e cujo significado ficou claro com o título Tudo Te É Falso e Inútil, que o crítico Ronaldo Brito “roubou” de Fernando Pessoa para Iberê batizar uma série.
“Ele sempre teve essa reminiscência do que fez, essa melancolia. Era um existencialista, estava ressentido com as coisas”, supõe o (agora) coordenador do Acervo da Fundação Iberê Camargo (e gravador do artista nos seus últimos anos de vida), Eduardo Haesbaert. A despeito de ter confirmado em inúmeras entrevistas que, sim, sentia-se só nesse período, algumas das inconformidades mais íntimas de Iberê estão sendo desveladas agora, 15 anos depois de sua morte, quando finalmente começa a ser organizada a correspondência do pintor. É um subproduto da catalogação de sua obra completa, comandada pela doutora em Artes Plásticas Mônica Zielinski e que já originou o primeiro volume do Catálogo Raisonné, onde estão impressas e listadas todas as gravuras produzidas pelo artista.
Na fundação, há mais de 50 cartas escritas por ou para Iberê Camargo, todas datadas e cuidadosamente embaladas em papel vegetal. Nada, se comparado à caixinha de guardados que Dona Maria mantém em casa, que inclui cadernos de rascunhos – sim, Iberê também era obsessivo em retocar suas cartas antes de remetê-las pelo correio (em alguns casos, três ou quatro rascunhos precedem o texto final) – e anotações pessoais que recebem como invólucro uma caixa vermelha de papelão.
Em uma delas, o pintor expõe detalhadamente sua preferência pelos tais tons sombrios. “Há na minha paleta interior as cinzas do carvão de pedra, a ferrugem e o vermelho descorado (o róseo) das caldeiras das locomotivas abandonadas no depósito, o negro das chaminés, o verde escuro das águas estagnadas. A cor barrenta do rio na cheia e sombria dos charcos dos banhados, cercadas de um verde queimado e o céu desbotado do entardecer. As sombras escuras dos oitões das casas, o branco surpreendente da cal das paredes e da fachada. Cores caladas, silêncios apagados, todas elas misturadas com nostalgia e delicadeza”, escreve o pintor. Das cartas e notas de Iberê e Dona Maria, a equipe da fundação extraiu informações preciosas. “Ninguém sabia muito ao certo quando havia sido inaugurado o painel de Genebra. Eu falei que a data estava nas cartas”, relata Haesbaert.
Assim como a confirmação do brinde pelo famoso painel com que o governo brasileiro presenteou a fundação da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1966, os escritos guardados por Dona Maria revelam, por exemplo, que em 1961 Iberê já havia assinado um contrato de exclusividade com uma galeria carioca. “Acho que era a Petit Galerie, em Ipanema”, ajuda a viúva.
Contrariando uma das características mais atribuídas a Iberê Camargo, suas cartas demonstram um homem bem--humorado e alegre. “Ele era um provocador. Brincava com tudo e com todos. Aquela nostalgia, ele direcionava e restringia para a arte”, diagnostica Eduardo Haesbaert.
Para o amigo e filósofo Sanson, por exemplo, descreveu assim o inverno de Porto Alegre, em 1969: “O frio está insuportável. O sol se apagou num céu sem cor. O minuano encurta as minissaias das gurias. Se pneumonia desse na bunda, todas elas estariam hospitalizadas”, diverte-se.
Em outro trecho que não traz o destinatário, ressuscita o guri de Restinga Seca. “Quando era criança, aceitava o mundo como os adultos m’o apresentavam. Papai-do-céu estava no alto e manifestava sua ira com raios e trovões. Assustado, eu me escondia debaixo das cobertas e bulinava as gurias, companheiras do esconderijo no escuro das cobertas!”, lembra.
Maldizendo os importadores de tinta, que não traziam as melhores qualidades e os maiores tubos, escreve, ácido, à pintora e aluna Regina Silveira: “Como você sabe, o comércio no Brasil está nas mãos do português, por natureza, pequeno. Cada vez que chega um novo sortimento, sempre raquítico, o preço é majorado”, reclama. “O Iberê era muito alegre e grande amigo. Quando ele gostava de alguém, queria essa pessoa próxima. Era muito social”, revela Dona Maria. De fato, todas as cartas enviadas a amigos terminam invariavelmente com a frase. “Esperamos abraçar-te em breve.”
A picardia também é uma constante nas correspondências trocadas durante sua permanência no Rio de Janeiro, entre 1942 e 1983, interrompida diversas vezes para viagens pontuais à Europa e ao Rio Grande do Sul. É dessa época uma correspondência que envia ao então deputadofederal trabalhista Unírio Machado, parabenizando-o pela sua postura de defesa da propriedade intelectual, embora o projeto de lei não tenha passado no Congresso. “O artista, sem necessidade de estímulo material, prossegue sempre dando a todos o melhor de si mesmo.” E finaliza com uma frase de Rodin: “O mundo só será feliz quando os homens trabalharem com alma de artista”.
No fim de sua vida, em 1990, escreve a Ronaldo Britto, que recém chegava da Europa: “Aqui não há referências, não há escala para avaliações. Lá onde andaste, os museus são ricos em obras mestras que apontam caminhos, estimulam a criação e reciclam o pintor”. Dois anos depois, repete o discurso para Carlos Zílio: “No deserto brasileiro sem referências, a minha bússola é a intuição”. Mas quando Paulo Estelita Herkenhoff o convida a tomar parte em uma mostra de arte brasileira, na Alemanha, ele ataca. “Lamento que os estrangeiros, no presente caso, alemães-batata, venham com a nossa aquiescência apontar o que devemos ou não exibir ao mundo. Essa é uma atitude nitidamente colonialista, que não aceito. Merda pra eles!”, desabafa.
Quando voltou ao Rio Grande do Sul, em 1983, depois de ser absolvido por matar um homem que o atacou e amargar dois meses na prisão, Iberê manifestou publicamente que não aguentava a distância do Estado natal. “Voltei em busca da tranquilidade que perdera no Rio. E também porque a saudade tornara-se grande demais”, revelou em escritos biográficos. Mas suas cartas criticam o provincianismo e o isolamento – geográfico e de ideias – que o Rio Grande exibia, como demonstra à amiga e curadora carioca Vandinha: “Melhor ainda se viesses a esta cidade que se diz alegre, embora seja triste. O nosso rio, o Guaíba, de tanto lavar a cidade ficou sujo”.
Distante do centro do país, onde a arte era um acontecimento, Iberê tinha de recorrer aos amigos para saber de novidades. “Escuta, che, já saiu o dicionário das artes plásticas? Aqui nesses verdes campos vive-se à margem da história. E mais, só existem e acontecem as coisas que o Correio do Povo publica”, critica ao amigo filósofo Sanson.
O pintor valia-se de suas relações conquistadas especialmente nas reuniões dominicais, no ateliê da Lapa, para galgar conquistas à classe artística. “Passávamos a tarde toda conversando. Eram intelectuais, artistas, políticos. De direita e de esquerda”, garante Dona Maria.
Uma delas foi a amizade de Roberto Marinho, o todo-poderoso fundador da Rede Globo e íntimo dos militares. “Iberê tinha muita força e era muito amigo do Roberto Marinho. Fomos muitas vezes à sua casa”, confessa a viúva.
Quando o editor do jornal O Globo decidiu criar uma coluna que conferia notas (de bom a sofrível) às exposições de artes plásticas em cartaz no Rio de Janeiro, Iberê não titubeou. Coletou a assinatura de mais de 100 artistas e enviou o seguinte manifesto ao amigo: “Os conceitos estéticos em todos os períodos históricos férteis são quase sempre conflitantes. A eleição de um único ponto de vista para a aferição da diversificada produção artística nacional é, por conseguinte, extremamente perigosa como elemento cultural e injusta como prática social. Nem sempre a crítica especializada tem a possibilidade de abarcar com segurança o conjunto de ideias que procura abrir novos caminhos à arte e ao próprio pensamento estético”, escreveu.
E pedindo a supressão do painel de avaliações (e não da crítica realizada periodicamente por Frederico Morais), defendeu: “Mantendo esse jornal uma coluna de artes plásticas assinadas, onde a crítica é exercida livremente, o referido painel de cotações passa a ter caráter injustificável, deixando injulgado o conceito emitido, não dando aos artistas e ao público a possibilidade de avaliar as razões para a escolha de tais cotações”.
A carta chegou à redação de O Globo no dia 1º de novembro de 1975. Bastaram dez dias para que Roberto Marinho publicasse uma nota do editor noticiando o cancelamento da coluna. Pudera. Entre os signatários da reivindicação estavam Burle Marx, Djanira, Milton Dacosta, Maria Leontina, Frank Shaeffer, Bruno Giogi, Anna Letícia, Carlos Scliar e Israel Pedrosa.
O mesmo jornal do amigo Roberto Marinho havia publicado, no dia 1º de abril de 1964, o nome de Iberê ao lado de outros “subversivos”. “Recomendava que a população tomasse cuidado com eles”, relata Dona Maria. O fato obrigou o casal a fugir e a esconder-se temporariamente no sítio de Oswaldo Aranha Filho. “Porque nós morávamos na Serafim Valandro e na esquina havia um quartel. Ficamos mais de uma semana escondidos lá, mas para mim foi uma eternidade”, lembra.
Por outro lado, inúmeras vezes a imprensa atribuiu ao pintor um perfil reacionário, de direita. Mesmo depois desses acontecimentos, Iberê assegurava: “Não faço política. Não sei de nada do que acontece. Não tenho convicções políticas”. Ao que Dona Maria faz coro: “Uma época diziam que Iberê era comunista, mas ele vivia lá no Roberto Marinho. Ele tinha amigos políticos, mas não queria nem saber se eram de direita ou de esquerda. Tinha um militar que frequentava o ateliê e tinha de deixar o revólver em cima do armário. Aí ficavam lá, conversavam, conversavam”, lembra.
Não é bem o que revela a leitura da correspondência do artista. De Juscelino Kubitschek, Iberê Camargo recebeu um telegrama agradecendo o apoio à sua candidatura presidencial em 1955. A Leonel Brizola, mandou os parabéns pela sua eleição como governador do Estado do Rio de Janeiro. E um dia antes da morte de Luis Carlos Prestes (7 de março de 1990), ele escreveu um texto que remete à queda do Muro de Berlim (ocorrida no ano anterior) e ao final da Guerra Fria (e, consequentemente, de alguma esperança de supremacia comunista): “Prestes está morrendo. Que ironia! Um líder de sua estatura e coragem assistir, no fim de seus dias, à derrocada do que foi a razão de sua vida. Ver a estátua de Lênin tranformar-se em sinos de igreja.”
Já em Porto Alegre, Iberê assistiu à redemocratização do Brasil. Foi nessa época que nasceu Maqui, o cartunista. A José Sarney, dedicou uma caricatura publicada na capa de O Pasquim. Retratou Pedro Simon como maestro do invisível, pelos seus excessos gestuais em discursos. O governador Alceu Colares e a primeira-dama do Estado, Neuza Canabarro, tampouco puderam escapar de sua ironia. “Mas quem ele mais atacou foi mesmo Fernando Collor”, avalia Haesbaert.
Pouco depois da posse do então presidente, no dia 10 de março de 1990, escreveu para Ronaldo Brito, que estava na Europa: “Divirto-me com a apresentação dos ministros de Collor no noticiário falado e escrito. Me cheira muito ao programa de auditório do Silvio Santos. O novo presidente tem um ar messiânico, voz e postura de religioso protestante”. E zomba também da oposição do Partido dos Trabalhadores: “Do outro lado estão os barbudinhos inconformados com a derrota eleitoral. O Lula Lá, quando faz pronunciamentos, fala aos arrancos, dando cabeçadas como fazem as vacas para se livrarem dos laços”, tipifica.
Dois anos depois, recebendo as denúncias contra Collor que o levaram ao impeachment, Iberê desabafa com Britto Velho: “Estamos sendo governados por ladrões, cujo chefe é o Collor. Eu nunca me iludi com essa gente”. E critica os amigos que preferem ignorar o tema: “Não me surpreende o silêncio. Calar é uma forma covarde de omissão”.
Foi no início da década de 90 que Iberê Camargo começou a sentir a força do câncer que lhe venceria antes de completar 80 anos. Nesse período, a ironia das cartas vai sendo substituída por reflexões de vida e pressentimento da morte. À Vandinha, em março de 1990, lamenta: “Há tantas coisas para a gente se dizer nesse curto tempo que é a nossa vida. Distraídos com ninharias, o dissipamos como se dispuséssemos da eternidade. É verdade que só graças a essa inconsciência é que conseguimos não perder a razão. É tão absurdo ser e de repente deixar de ser”, filosofa.
Na sequência, ele rememora a coleção que marcou seu retorno ao Rio Grande do Sul, no início dos anos 80: “Ah, os meus ciclistas. Talvez eles sejam eu viajando pelos (i)mundos no dizer do nosso amigo Ronaldo”.
Em outro momento de reminiscência, em 1992, volta a resgatar coleções antigas: “Vejo na paisagem que vai ficando para trás a marca de meus passos (fatigados) e os destroços dos meus sonhos. Eles têm formas diferentes? Ora são carretéis, ora soldadinhos de chumbo, às vezes trenzinhos, ora caixas d’água, ora bicicletas destroçadas (abandonadas), ora mulheres de olhos tristes que fitam horizontes de mãos vazias. São imagens meio soterradas, apodrecidas (cobertas pelas areias do tempo). Esse tempo que me leva como um rio”.
No mesmo ano, confessa para Carlos Zílio: “Hoje, estou angustiado. Na próxima semana, devo me submeter a um exame de saúde nada agradável”. Um dos mais impressionantes relatos de sua visão da morte foi escrito na forma de uma metáfora: “Recordo agora o minúsculo inseto que vi subir a alta parede do meu ateliê, rumo ao teto, um horizonte fechado. Vi-o cair várias vezes e recomeçar sempre a escalada. Enfrentou a vastidão branca da parede. Era um andarilho (Iberê costumava se dizer um andarilho) que palmilhava aquela solidão branca, sem caminhos ou outra referência que seu instinto animal. Essa ânsia de andar, de buscar, parece comum a quase todos os seres vivos, a tudo que se move. Procura o quê? O amor? A liberdade? A glória? Talvez a fama... Procurar, procurar, procurar... talvez a morte seja o que ele procura”. |
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