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Alain de Botton é quem adverte, no livro A Arquitetura da Felicidade: mesmo que faça parte de nossa identidade individual, de formação, o lugar onde vivemos não recebe a atenção que merece, seja pela velocidade da vida urbana, seja pela simples naturalidade que adquire ao longo da história. Foi assim com Londres, onde o escritor suíço está radicado: logo após o grande incêndio de setembro de 1666, o arquiteto Christopher Wren apresentou projetos para a reconstrução da capital inglesa com bulevares e praças, vistas panorâmicas, avenidas simétricas – nada disso saiu do papel. “Londres poderia ter tido uma grande imponência, semelhante à de Paris e à de Roma; poderia ter sido uma grande cidade europeia”, lembra Botton no seu livro. E a cidade, em que pese a sua importância econômica e política no cenário mundial, não é reconhecida pelo traço urbanístico. Na história de Porto Alegre, também houve um momento em que a cidade ameaçou mudar de cara e dar um salto de qualidade. Entretanto, assim como em Londres, o ciclo não prosperou.
Foi na virada dos séculos 19 e 20, quando um surto de riqueza trouxe grandes projetos de infraestrutura urbana para Porto Alegre. Rivalizando em importância econômica com São Paulo e Rio de Janeiro, a cidade se viu transformada num grande canteiro de obras financiado principalmente pelo capital da burguesia alemã que aqui se instalou. Nesse período foram construídos o Porto Novo, os edifícios que viriam a formar a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a praça da Alfândega, o edifício Ely, a cervejaria Continental e muitos outros prédios que, hoje, formam o principal núcleo patrimonial da cidade. No epicentro dessa onda renovadora estava um alemão recém-chegado à capital: Theodor Wiederspahn.
O artista, segundo alguns dos mais importantes arquitetos da cidade, elevou Porto Alegre a um patamar até então desconhecido. Até os mais desatentos vão lembrar da imponência das construções que formam hoje a praça da Alfândega, que continuam preservadas e que, unidas, representam um dos bons momentos da carreira do arquiteto. Mas o Banco da Província, atual Santander Cultural, o prédio dos Correios & Telégrafos, hoje Memorial do Rio Grande do Sul, e a Delegacia Fiscal, hoje Museu de Arte do Rio Grande do Sul, formam apenas uma pequena parte da produção do arquiteto. Muita coisa elaborada por ele ainda pode ser vista, mas um grande número de obras desapareceu sob a onda modernista que imediatamente sucedeu o ciclo eclético da arquitetura de Theo. Agora, uma biografia do artista elaborada pelo professor Günter Weimer tenta recuperar a essência de Wiederspahn.
Nascido em Wiesbaden, em 1878, Theo imigrou para o Brasil em 1908 – justamente num momento em que Porto Alegre crescia, a economia decolava e o Rio Grande do Sul aparecia como o terceiro Estado mais importante do Brasil. Não foi por acaso que a arquitetura local passou a ter importância e destaque. Como lembra Weimer, arquiteto e professor convidado da UFRGS, a relação entre as classes dominantes e a produção arquitetônica de uma época são diretas e estreitas. “Theo teve a felicidade de chegar na hora certa e no lugar certo”, avalia.
Wiederspahn desembarcou na capital gaúcha para tentar a vida e para fugir de problemas familiares. Quando chegou, felizmente para a arquitetura da cidade, ficou sem o emprego que lhe fora prometido na Viação Férrea. Acabou sendo apresentado ao também alemão Rudolf Ahrons, dono da maior construtora da cidade e que o colocou à frente da sua equipe de projetistas. A empresa de Ahrons foi uma das empreiteiras mais prósperas do Estado durante o início da República Velha e só perderia força com o início da 1a Guerra Mundial, a partir de 1914, quando os descendentes de alemães começaram a ser perseguidos pelas autoridades brasileiras e acabaram buscando outras alternativas de negócios. A empresa de Ahrons não resistiu às pressões e faliu.
Justamente por conta dessa perseguição, grande parte da documentação e das memórias de Wiederspahn se perderam. Por escrever seus projetos e anotações em alemão, o que na época bastava para ser considerado inimigo, o arquiteto teve todo o seu acervo confiscado pelas autoridades. O acervo nunca mais foi encontrado. “Theo recortava do jornal tudo o que saía sobre as suas obras, tinha cadernos e cadernos de memória. Tudo isso foi perdido depois da 2a Guerra Mundial”, complementa Günter. Apesar de todas as dificuldades em juntar material sobre vida e obra do arquiteto, Günter Weimer lançará a biografia de Theo ainda no primeiro semestre de 2009. Organizada durante os últimos três anos, o livro conta a história da família de Theo, seus feitos arquitetônicos e suas aventuras de vida.
Wiederspahn projetou uma grande quantidade de palacetes, casas e vilas ainda na Alemanha, quando iniciou sua formação, e trouxe para Porto Alegre um estilo diferente do que a terra colonizada por portugueses açorianos conhecia. “A característica da arquitetura de Theo é uma coisa peculiar no Brasil. Pode-se dizer que ele tinha uma linguagem eclética, que é a mistura total dos elementos estilísticos das diversas épocas” comenta Weimer. Em seus projetos, usualmente misturava elementos clássicos, barrocos e renascentistas. E, em algumas das suas obras mais tardias, pode-se ver traços de uma arquitetura que já incorporava o modernismo. Um bom exemplo de seu ecletismo é o atual prédio do Margs, que possui colunas clássicas misturadas com vitrais barrocos. “Wiederspahn pode ser considerado um dos maiores nomes na construção de uma arquitetura de qualidade em Porto Alegre, deixando sua mar ca num conjunto significativo de obras. Nas suas formulações se combinam o gosto pelo detalhe, o preciosismo nos acabamentos e o requinte estético, mas também uma funcionalidade muito eficaz”, define a professora Nar Helena Machado, coordenadora do curso de Especialização em Arquitetura da PUCRS. Outro admirador de sua contribuição ao cenário estético de Porto Alegre, o arquiteto Edson Mahfuz lamenta a falta de reconhecimento que a cidade dispensa a seu arquiteto. “É de se deplorar que muitos dos seus edifícios e casas tenham sido demolidos. Uma obra como a dele merece ser mais conhecida”, diz o professor da UFRGS.
Mas, apesar da reconhecida importância de seus projetos para o cenário urbano de Porto Alegre, seu estilo e tradição alemã ainda geram discussões – algumas acaloradas. Luiz Carlos da Cunha Carneiro, diretor do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, argumenta que Wiederspahn, apesar de ter deixado um legado importante para a cidade, não contribuiu para a formação estética de Porto Alegre. “Wiederspahn, apesar de ter sido um dos arquitetos mais importantes a trabalhar na cidade, na primeira metade do século 20, não é a reprodução de uma cultura da cidade. Nesse contexto, ele é um alienígena. Ele pertence à comunidade alemã e produz uma arquitetura alemã voltada para a sua própria comunidade”, critica Carneiro. Para ele, a presença do arquiteto como protagonista no ciclo de desenvolvimento da cidade acabou destruindo a origem açoriana da capital, da qual não restou praticamente nenhum exemplar. “É o construtor de um imaginário burguês para Porto Alegre, uma cidade que não queria se identificar com a origem açoriana e pobre”, ataca. A coordenadora do projeto Monumenta em Porto Alegre, Briane Bicca, minimiza o impacto dessa presença de Theo, embora reconheça o efeito “destruidor” de sua arquitetura. “Ele substituía de maneira digna, trabalhava para melhorar a cidade. Apesar de demolir alguma construção mais antiga, Wiederspahn colocava no lugar uma arquitetura de boa qualidade”, justifica a arquiteta. “Guardadas as devidas proporções, foi para Porto Alegre o que [Antonio] Gaudí foi para Barcelona”, compara Maturino Luz, coordenador do laboratório de História e Teoria da Faculdade de Arquitetura da UniRitter. Para o professor, é visível a forte identidade deixada pelo arquiteto e por seus discípulos na paisagem de Porto Alegre. Maturino lembra que Wiederspahn não era apenas um profissional dedicado à sua arte: ele ajudou a fundar a Escola de Artes e Ofícios (a Gewerbeschule, que funcionou de 1914 a 1924, e da qual foi diretor) e a criar um sindicato para a categoria, o primeiro a envolver trabalho intelectual na cidade.
Quem transita por Porto Alegre não pode deixar de reconhecer nas ruas o patrimônio deixado pelas obras de Wiederspahn. Na Praça da Alfândega, além dos três prédios já citados, Theo também foi o responsável por projetar o edifício da antiga Previdência do Sul, depois transformado em Cine Guarany e, hoje, ocupado pelo Banco Safra – só a sua fachada ficou para a história. O palácio Chaves, que também ocupava a praça da Alfândega e abrigava o antigo Café Colombo, foi demolido.
Ainda no centro da cidade, pelas redondezas da Rua dos Andradas, encontrava-se um dos primeiros prédios de concreto armado da cidade, a Central Telefônica Ganzo. Construído em junho de 1908, foi posto abaixo anos mais tarde para dar lugar a um edifício sem expressão. Theo assina também o projeto do Hotel Majestic, que no final dos anos 80 foi transformado em Casa de Cultura Mario Quintana, e o do Edifício Nicolau Ely, no cruzamento da Avenida Voluntários da Pátria com a Rua da Conceição – uma de suas obras mais exubrantes que ainda continua de pé. Outra obra de vulto é a cervejaria Continental, na Avenida Cristovão Colombo.
Wiederspahn construiu ainda mais de uma dezena de palacetes residenciais para grandes capitalistas da época – indo em direção ao bairro Navegantes, uma série de armazéns foram erguidos para fins residenciais e comerciais. Mas, com o tempo, a região acabou dando lugar a outro tipo de atividade econômica. “Hoje, restam só uns três ou quatro armazéns”, lamenta o biógrafo de Theo, Günter Weimer.
Porto Alegre passou também por outras transformações urbanas, e muitas das obras de Theo e de outros arquitetos da época não foram preservadas. Acompanhando os diferentes planos diretores da cidade e suas transformações urbanas, é possível identificar uma substituição sistemática de valores, onde o novo e o moderno prevalecem sobre o patrimônio antigo. “O que mais incomoda é que a substituição é sempre por coisas piores”, lamenta Weimer. O diretor do Arquivo Histórico do Estado minimiza. “O que precisamos fazer é preservar uma amostragem da arquitetura antiga. E isso não foi feito, nem com os exemplares açorianos. No lugar dela veio uma tradição alemã inventada”, cutuca Luiz Carlos da Cunha Carneiro.
Theo morreu aos 73 anos de idade e trabalhou até o final de sua vida. Entre 1908 e 1930, o arquiteto somou 554 projetos documentados, o que dá uma média de 25 por ano. Com a perseguição sofrida durante a primeira guerra, e depois com a exigência de registro profissional para atuar como arquiteto, Theo foi rebaixado a “construtor licenciado” e passou a exercer suas atividades no interior do Rio Grande do Sul. Esquecido, entre 1931 e 1952, ano de sua morte, realizou apenas 81 projetos. Apesar disso, o seu legado é enorme e sua arquitetura permanecerá no patrimônio da cidade. No interior do Rio Grande do Sul, uma boa quantidade de igrejas, fábricas e palacetes ainda permanece em pé e bem conservada, à espera de um inventário. |
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