A revista | Assine | Anuncie | Apóie | Grupo AMANHÃ

 
Índice
História
Entrevista
Música
Teatro
Arte
Edições anteriores
Notas
 
 
Literatura de choque
25/05/2005

Flávio Ilha*

Dizer que a turma das Edições K produz uma literatura marcante seria certamente um exagero. Mas reconhecer que estamos diante de uma proposta ousada e atraente, não. O último lançamento do grupo, o livro Textorama (Edições K, 112 págs., R$ 10, que pode ser encontrado na Palavraria e no Botequim das Letras), do jornalista baiano Patrick Brock, é mais um tratado das intenções dos escritores que publicam em torno do selo: apreender esteticamente a loucura das desigualdades sociais; dar um recado curto, direto, áspero; cutucar a indiferença coletiva em relação à decadência moral e econômica do outrora país do futuro.

 

Pois provocação é o que não falta a Brock, a começar pelo estilo agressivo das primeiras narrativas que, não por acaso, ele chama de Confessus. Nelas, o narrador em primeira pessoa clareia a estupidez urbana em confissões delirantes e curtas, algumas com pouco mais de meia dúzia de linhas. “Entre rios de merda, apressados viajantes seguem para destinos em todo o mundo. Veículos fósseis cruzam em sentidos opostos as vísceras deste organismo fantástico”. Ou, do mesmo conto (Urbi et Orbi): “Avenidas cancerígenas, nuvens de fog e vidas diluídas”. Não há propriamente histórias a serem contadas, mas instantes de perplexidade, desespero e náusea com um mundo – e seus personagens – visivelmente errado.

 

Mas há sonhos, também. Em Kerouac à Vinagrete, Brock relaciona a aventura da busca pela felicidade ao fenômeno beat, imaginando-se envolto na atmosfera literária que embalou gerações de nômades americanos desde os anos 60. “As possibilidades só alimentavam mais a minha ansiedade: posso morrer assassinado numa viela escura, encontrar o amor da minha vida, chorar de felicidade e tristeza por um braço amputado”, diz o narrador, ao se deparar com uma missão capaz de abalar sua medíocre condição de desempregado. Mas momentos assim, de algum lirismo poético, são raros. Em geral, Textorama não sugere, e muito menos procura, saídas: ele apenas mostra o que todos fingem não ver.

 

Na segunda parte, Cornucópia, a viagem se radicaliza. No conto Boxeador, um garoto pobre comete um crime bárbaro por mero acaso. O simbolismo da narrativa é direto: fosso social, falta de perspectivas, incomunicabilidade, banalização. Em textos concisos, aparecem também solitários navegadores de internet e sua fixação por pornografia, mulheres taradas, casais desajustados, famílias desmanteladas. Tudo escrito de forma direta, sem meias-palavras. Com urgência, o que provoca uma certa complicação estética: o vocabulário acaba reduzido, a imagem é mais forte que sua narração, o resultado – que poderia sublimar uma realidade estúpida – acaba subvalorizado unicamente em função do discurso.

 

O volume se fecha com uma pequena novela, ou um conto mais longo, A Pira de Al Nite Lang, em que o perturbado protagonista – alterego do próprio autor – ruma para um desfecho estranho enquanto se droga, faz muito sexo e se preocupa com dores no pulmão, que se agravam paulatinamente. Nesse meio tempo, Lang perde o emprego (um tema recorrente no livro) e procura alguma explicação para o mal-estar que marca seus dias. “Parece que estou em animação suspensa. Penso no prazer. Só ele salva.” A narrativa segue para um final turbulento, que revela todo o desassossego de Brock com o mundo concreto da polícia, das rodoviárias, dos horários, do futebol. A saída está nos extraterrestres.

 

O estilo de Brock não é evidentemente novo e muito menos a sua contundência é revolucionária. Mas Textorama é um livro que tem reflexão, que incomoda e que, se não é perfeito, passa ao largo das experiências mais escatológicas dessa literatura de choque. Como diz um dos personagens do livro, “descobri, entre uma pesquisa do Google e um artigo pensante, a Verdade da Vida. E é mentira”. 

***

Notícias de Paris

Ele fez parte da edição de abril da centenária Nouvelle Revue Française, de número 573, num dossiê sobre literatura brasileira. Figurou ao lado de clássicos como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral, e de contemporâneos, entre eles Bernardo Carvalho e Milton Hatoum.

 

Ele, no caso, é Amilcar Bettega. Morando na França, o escritor e tradutor prepara um novo volume de narrativas em que a tensão poética de um instante determinado será a tônica. A experiência trará para o campo da linguagem a fixação de imagens desgarradas da realidade cotidiana, como explica o próprio Amilcar nesta mini entrevista, por e-mail, à coluna Estante:

 

Como será seu próximo livro?

Se tudo correr bem, e com um pouco de sorte e muito trabalho, deve ser um conjunto de textos muito curtos (uma, duas páginas no máximo) onde a tônica é destacar uma situação rápida – que em algumas vezes pode até nem se desenvolver para se realizar logo a seguir num conto –, mas que deverá guardar uma certa tensão poética, cristalizar uma imagem, criar uma espécie de bolha de ficção que se desgarra da realidade cotidiana, ponto de partida de todos os textos. Seriam tentativas de fixação de uma imagem por meio da linguagem. Haveria um certo caráter alegórico naquilo que instaura a ficção nos seio dos textos, na história que se desenha em cada um deles.

 

Como anda a rotina na França?

Por aqui, estou envolvido com traduções. Já há um ano que trabalho sobre um volume de 125 contos de Guy de Maupassant, para uma coleção de contos da Companhia das Letras. São quase mil páginas, uma loucura. Já as traduzi, agora começo a revisão. Mas tradução é uma coisa que não tem fim, se a gente quer fazer direito. E eu sou muito detalhista, muito perfeccionista. Além disso, tenho feito de vez em quando umas traduções para o Atelier Européen de la Traduction, que trabalha exclusivamente com textos de teatro de autores contemporâneos. E me esperam também uns contos de Nerval e Marcel Schwob, que devo traduzir para uma antologia do conto fantástico.

 

*Jornalista, subeditor de APLAUSO


     
 
 
     
 
O homem não é máquina

Primeiro palestrante do Fronteiras do Pensamento, Miguel Nicolelis falou do "século do cérebro"

Leia mais

 

 

 

  Mapa do site | © Grupo AMANHÃ