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Austero requinte

Por Paula Ramos, jornalista, crítica de arte e professora do Instituto de Artes/UFRGS

Com exceção das ruínas remanescentes da experiência jesuítico-guarani, a Catedral de São Pedro, na cidade de Rio Grande, é o templo mais antigo do Estado. A igreja surgiu em substituição à ermida precária que ficava junto ao Forte Jesus Maria José e que teria sido construída entre 1737 e 1740, a partir das orientações do brigadeiro José da Silva Paes. Foi ele o primeiro militar português a se envolver com os processos de demarcação de terras para a Coroa Lusa na área mais meridional da colônia, ou seja, no território que hoje constitui o Rio Grande do Sul. 

Aproximadamente dez anos depois de suas intervenções, em vista das mudanças de limites entre Portugal e Espanha, estabelecidas pelo Tratado de Madri (1750), Gomes Freire de Andrade (1685-1763), Conde de Bobadela e governador-geral da colônia, aportou na região com objetivos semelhantes: incentivar as edificações portuguesas no sul do Brasil, a partir das quais a soberania lusitana seria assegurada. Foi nessa conjuntura que ele, sensibilizado por uma carta do então vigário de Rio Grande, padre Manoel Francisco da Silva, mandou construir um novo templo. Era 1752. Dois anos depois, em 25 de agosto de 1754, as obras iniciavam-se e, no ano seguinte, a igreja recebia as bênçãos. O feito aparece registrado em uma placa de mármore, fixada sobre a portada da construção, na qual os nomes de Gomes Freire de Andrade e do rei português de então, D. José I, lançam-se à eternidade.

Construída numa região de economia rudimentar e permanentemente preocupada em assegurar as instáveis fronteiras, a igreja, tombada pelo Iphan em 1938, traz como principais características formais o pragmatismo e a robustez – qualidades que também ecoam nas demais construções sul-rio-grandenses surgidas entre o século 18 e o início do 19. A base de sua alvenaria está no uso da pedra e da cal. Se a primeira dá corpo às fartas paredes, a segunda garante o branco luminoso da fachada, item que, em um primeiro momento, mais chama a atenção. Na época, os sambaquis localizados nas regiões litorâneas forneciam a matéria-prima para a produção da cal, adotada na pintura externa de várias edificações.

Nos dias de hoje, é com relativa frequência que a igreja recebe a alva cobertura, o que lhe permite tentar destacar-se visualmente em meio à balbúrdia do largo no qual está localizada, no centro de Rio Grande. O fato é que, embora bem preservada, a catedral se encontra sufocada pelos prédios vizinhos, que simplesmente ignoraram o plano original da praça, bem como as relações estabelecidas entre os edifícios, a partir de seu principal monumento, a própria São Pedro. Nesse panorama, é compreensível a pouca atenção que os habitantes da cidade parecem dedicar ao templo, ainda mais em vista de sua silenciosa presença.

Austeridade militar
O rigor e a economia formal que regem a fachada de uma única porta e janela estão no projeto de Manoel Vieira Leão (1727-1803), cujos originais, durante décadas preservados em Portugal, foram destruídos por um incêndio em 1970. Nele, além do desenho espartano, são observados detalhes importantes, como o acabamento das cornijas e pilastras, bem como a proposta da planta, levemente alterada durante a construção. Vieira Leão, o autor do projeto, integrava o corpo de engenheiros militares que acompanhou Gomes Freire de Andrade ao Sul, e em cujo comando estava o coronel José Fernandes Pinto Alpoim (1700-1765). Ao que tudo indica, foi este último o responsável pela execução da obra.

Considerado um dos mais ilustres engenheiros do período colonial brasileiro, tendo inclusive conquistado o posto de brigadeiro, o mais alto na hierarquia militar, Alpoim traz em seu currículo o projeto para o Palácio do Governo, em Ouro Preto, e o plano urbanístico de Mariana, ambos em Minas Gerais, além dos Conventos da Ajuda e de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, todas obras importantes nos ambientes urbanos citados. Em vista desses exemplares, chama a atenção o fato de um tão destacado profissional ter assumido as obras junto à singela igreja sulina, o que também nos permite perceber a relevância dada por Portugal ao território que começava a ser desbravado.

Na fachada, além da única porta em madeira e, no alto desta, da única janela, localizada na altura do coro, encontramos um frontão triangular e, ladeando-o, duas torres com cúpulas de quatro gomos curvos, trazendo pináculos no topo e ornamentos em barro nos cantos. Enquanto a torre leste é marcada pela presença de sinos, a oeste traz um relógio afixado à parede; originalmente, ele foi instalado em 1848, embora o modelo em funcionamento seja mais moderno. A portada foi talhada em gnaisse, pedra oriunda de Portugal; acima dela, temos a já citada placa em mármore, indicando os responsáveis pela edificação do templo e, ao lado, uma outra inscrição informa que foi naquele espaço que o Marquês de Tamandaré, Patrono da Marinha brasileira, recebeu os “santos óleos”, ou seja, o batismo. Além dele, outros personagens ilustres têm seus nomes ligados à igreja, como o polêmico caudilho militar Rafael Pinto Bandeira (1740-1795), cujos restos mortais estão ali preservados.

Foi Pinto Bandeira, “Cavaleiro professor da Ordem de Cristo, Brigadeiro da Legião de Cavalaria Ligeira deste Continente do Rio Grande e nele Comandante Geral”, quem, em 1792, iniciou a construção de uma capela contígua à Igreja de Rio Grande, que seria dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Dois anos depois, muito doente para terminar a obra, doou o terreno e as benfeitorias nele realizadas à Ordem Terceira de São Francisco de Assis, que a concluiu em 1814.

A capela já foi usada para a realização de cerimônias litúrgicas e, desativada das funções religiosas, também abrigou a redação e as oficinas tipográficas do semanário católico Cruzeiro do Sul. Hoje, acolhe a Coleção Sacra do Museu da Cidade de Rio Grande, idealizada por Dom Frederico Didonet, primeiro bispo diocesano local, e preservada com rigor pela diretora do acervo, a especialista em preservação e patrimônio, Marisa Beal.

Assim como ocorreu com a catedral, a capela também foi tombada pelo Iphan em 1938, no primeiro grande lote de edificações reconhecidas pela recém-criada entidade. Sessenta anos depois, em 1998, a Aphac (Associação Pró-Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Rio Grande) iniciou uma grande obra de restauração. Para tanto, contou com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura do Estado e patrocínio da Ipiranga, que já havia se envolvido nas obras de recuperação da própria Catedral de São Pedro, concluídas um ano antes, em 1997. O resultado é que, hoje, ambas as construções estão em condições de funcionamento e trazem preservadas várias de suas características originais.

No caso específico da capela transformada em museu, o visitante pode ver não somente artefatos bem acondicionados, como bem expostos. A coleção congrega aproximadamente 2 mil peças, entre imagens, oratórios, indumentárias e artefatos litúrgicos. E traz algumas raridades, como a imagem portuguesa de São Francisco de Assis, trazida pelos primeiros integrantes da Ordem Terceira, além de uma frondosa escultura representando São Miguel Arcanjo. Uma segunda imagem, idêntica a essa, pode ser apreciada na própria Catedral de São Pedro. É ela quem ocupa o mais suntuoso dos oito retábulos laterais do templo. Como era tradição nas igrejas católicas do período colonial, cada retábulo era erguido em honra a um santo ou a um conjunto de santos. Na maioria das vezes, a ornamentação dessas portentosas peças de madeira ficava a cargo das irmandades ou ordens terceiras, constituídas por leigos.

No caso do templo rio-grandino, o mais ornamentado é o retábulo em honra a São Miguel, montado a partir do final de 1780, quando, inclusive, a irmandade homônima foi ali instaurada. Em barroco enxuto e tardio, o retábulo mantém a camada pictórica original, nas cores carmim, azul e dourado, além de abrigar a escultura representando o anjo guerreiro em papel machê. São Miguel, na verdade, constitui uma importante invocação medieval. O anjo defenderia seus fiéis contra o demônio não somente durante a vida, mas, importantíssimo, também após a morte. Daí, inclusive, o fato de ser frequentemente associado às irmandades que administram cemitérios.

Com exceção desse majestoso conjunto, internamente, a Igreja de Rio Grande corresponde ao desenho pragmático da fachada. Ela é comedida e funcional. Raras são as ornamentações, inclusive as talhas decorativas junto à capela-mor, dedicada ao patrono da cidade e do templo, São Pedro. O destaque do ambiente fica por conta das esculturas em madeira, quase todas de roca e oriundas de Portugal. Trazendo roupas confeccionadas com tecidos, cabelos humanos e olhos de vidro, tais imagens estão inseridas na conjuntura do espírito barroco. Elas precisam envolver, seduzir, persuadir. No grande cenário da igreja setecentista, seus gestos retóricos acentuados acabam por estabelecer uma relação de cumplicidade com o espectador; sobretudo as que integram o conjunto dos Passos da Paixão.

É o que encontramos em uma pequena capela votiva lateral à nave da igreja. Ali estão duas imagens de roca de poderosa expressão: Nossa Senhora da Soledade e o Senhor dos Passos. A invocação da Virgem Maria representada nessa escultura mostra a Mãe de Deus solitária e triste, após a morte do filho. Já a imagem de Jesus, originalmente usada nas procissões da Semana Santa, representa-o com a cruz às costas e a coroa de espinhos à cabeça. A narrativa e a mensagem bíblica, portanto, são reforçadas pela ligação estabelecida entre as duas figuras, em um ambiente introspectivo e silente.

A presença espanhola
Em 1763, Pedro de Ceballos, governador da província de Buenos Aires, tomou Rio Grande, forçando tropas e a comunidade civil a se retirar em direção ao norte. A presença espanhola no território português se estendeu até 1776 e, nesse período, diversos foram os embates entre os exércitos das coroas ibéricas. Com isso, restou à população rio-grandina recuar para áreas mais protegidas, como a região da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Viamão, criada em setembro de 1747 e que, com a invasão espanhola, passou a acolher a governança da província, funcionando como sede administrativa até 1773, quando Porto Alegre se tornou a capital.

Na época, José Custódio de Sá e Faria (1710-1792) estava à frente do governo no sul da colônia. Foi ele quem ordenou a construção de uma nova igreja para a comunidade, projetando-a, nos dizeres de Francisco Riopardense de Macedo, “com a majestade de um templo e a envergadura de uma fortaleza”. Sá e Faria, assim como Alpoim, integrava o mais seleto grupo de engenheiros militares do período colonial. Além de suas várias edificações em território brasileiro, também trabalhou para a Coroa Espanhola, projetando, entre outras, a Catedral de Montevidéu, no Uruguai. No Rio Grande do Sul, são seus o plano urbanístico da vila de Taquari, incluindo os projetos do forte e da matriz, além da citada e exuberante Igreja de Nossa Senhora da Conceição, cuja feitura se estendeu de 1766 a 1769.

Em passagem por Viamão em 1820 e certamente impressionado pela grandiosidade do templo, o viajante francês Auguste de Saint-Hilaire assim se manifestou: “Pelas igrejas do Brasil pode-se aferir o quanto seria o brasileiro capaz, se sua instrução fosse mais cuidada e se tivesse alguns bons modelos para orientar-se. [...] Não se pode concluir daí que os brasileiros possuem um maior e mais natural sentimento das artes, e que, se conquistarem cultura, ela lhes custará menos trabalho e menos esforço?”. A reflexão, nascida de uma comparação entre as igrejas brasileiras e as francesas, dá o tom do impacto provocado pela imponente construção. Até hoje, aliás, ela provoca sentimentos semelhantes aos que se dedicam a efetivamente observá-la, mesmo que o entorno da praça, descaracterizado e sem qualquer atrativo, não colabore.

Verdadeira relíquia da arquitetura do século 18 no município, a igreja é assinalada pela presença de um adro com pequena escadaria e balaustrada. Na fachada tripartida, chamam a atenção, no primeiro nível, a porta imponente e as colunas ornamentais; no segundo, as janelas e o óculo quadrifólio e, no terceiro, o frontispício escalonado, arrematado por uma cruz. O corpo da construção é ainda ladeado por duas sineiras, aberturas junto às grossas paredes para a colocação dos sinos.

O interior de nave única, janelas altas e teto em arco abatido e sem adornos uma vez mais atesta a severidade das edificações sulinas do período. O diferencial, no entanto, fica por conta dos seis altares laterais, dedicados a Santa Bárbara, São Miguel Arcanjo, Santa Ana, o Divino Espírito Santo, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores, todos com níveis e nichos diferenciados para a colocação de imagens secundárias. Eles foram executados pelo entalhador Francisco da Costa Sene, o mesmo profissional contratado para realizar o altar-mor da igreja de Santo Amaro e, provavelmente, também o da igreja de Taquari.

Nos retábulos em madeira para a Conceição, mesmo que de forma tímida, Sene adotou uma linguagem entre a pompa das linhas barrocas e a leveza da estética rococó, marcante na segunda metade do século 18. Curvas, volutas e colunas torcidas se fazem presentes, mas não de forma excessiva. A pintura em tons claros e detalhes dourados busca a interlocução com as grandes talhas presentes nas igrejas mineiras, cariocas, baianas e pernambucanas do mesmo período. Porém, os trabalhos de restauração que vêm sendo realizados há pelo menos 11 anos recentemente comprovaram que esse diálogo é muito mais profícuo do que se imaginava.

Em meio ao restauro, uma surpresa
Desenvolvendo pesquisa junto à igreja, a professora do Instituto de Artes da UFRGS Lenora Rosenfield descobriu que há, sim, douramento no retábulo-mor da Conceição de Viamão. “Inicialmente realizamos alguns testes com solventes, para identificar as camadas de pintura, o que revelou que, em algumas regiões, ela é realmente dourada”, afirma. Isso significa que há aplicação de folhas de ouro na talha, o que não era esperado. “Esta é, sem dúvida, a grande descoberta do trabalho. Uma igreja ornamentada com ouro no pampa! E como a cor verde presente dos retábulos potencializa o ouro, dá a impressão de a igreja ser toda dourada”, comenta.

O projeto de pesquisa de Rosenfield tem como objetivo realizar um levantamento das camadas de pintura do altar-mor, dos retábulos e do arco cruzeiro. Até o momento, percebeu-se que quatro camadas foram aplicadas: a mais aparente é a de verniz incolor, seguida por uma de verniz marrom, outra de purpurina e uma última de ouro. “Talvez a camada de purpurina tenha sido adicionada durante o período da Revolução Farroupilha, para justamente esconder o ouro, evitando possíveis saques”, sugere.

O fato é que a descoberta tem feito o padre Rogério Flôres, pároco da comunidade, sorrir de forma ainda mais incisiva. “Quando a reforma estiver concluída, nós não vamos ficar muito atrás das igrejas de Minas Gerais e da Bahia”, profetiza. Exageros à parte, o tão esperado término das obras de restauração, previsto para o início de 2013, realmente promete resgatar a imponência enfática, porém adormecida, do templo.
As reformas para garantir a permanência e a dignidade da edificação tombada como patrimônio histórico e artístico nacional começaram em novembro de 1998 e englobaram várias etapas: fixação dos altares, descupinização dos retábulos, troca do assoalho e do teto, pintura do forro, entre outras. Atualmente, está sendo realizado um trabalho na fachada, além do resgate da pintura original dos retábulos, o que obrigou as imagens dos santos a deixarem os seus nichos temporariamente.

Nesse longo percurso, além de verbas oriundas do Iphan, o projeto recebeu apoio e patrocínio da iniciativa privada, como da Cervejaria Brahma e da GVT. Essas são supervisionadas de perto pelo padre Rogério que, nesses 11 anos, registrou os avanços em mais de 20 mil fotografias e pequenos vídeos no formato digital. “Estou fazendo uma faculdade completa aqui. Quando estava no seminário, todos tinham um certo ‘medo’ da Conceição, em vista de seus vários e históricos problemas estruturais, mas eu descobri um outro lado, que era possível restaurar”. E assegura: “Nesse trabalho, alguns mitos foram derrubados. As pessoas têm mania de reclamar que não há dinheiro, que não há jeito de se fazer as coisas... isso é um chavão. Organizados, nós fomos ao Iphan, fomos a empresas, conversamos com políticos, e aí começaram a surgir os recursos. É preciso perseverança e acreditar no que se faz”.

O exemplo bem-sucedido da Igreja de Nossa Senhora da Conceição talvez pudesse ser aplicado às construções religiosas coloniais de Triunfo e, principalmente, de Rio Pardo, em alto grau de degradação e que constituirão o foco de nossas próximas edições.

     
 
 
     
 
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