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Incendiários da palavra

Por Helio Barcellos Jr.

Mais do que a formação de um painel estético sobre a história do Brasil, o teatro de Jorge Andrade (1922-1984) chamou a atenção do diretor Mauricio Guzinski (foto) pela poesia de sua palavra. O dramaturgo paulista, que escreveu mais de 20 peças ao longo de sua carreira e fez muito sucesso, hoje mais parece estar condenado a integrar uma lista formada pelos grandes esquecidos do chamado teatro brasileiro moderno.  Somente Nelson Rodrigues escaparia, pois até mesmo Plínio Marcos está prestes a fazer parte do time de notáveis que foram banidos dos anseios de quem habita os palcos nacionais.

Mas, se depender de Guzinski, o autor de Os Ossos do Barão (1963) terá mais visibilidade no futuro. Pois ele não tem dúvidas: Andrade é o melhor dramaturgo dentre todos os brasileiros. É seu preferido, ao lado de William Shakespeare e de Federico Garcia Lorca. O diretor destaca que Andrade é o homem que se definiu como um Prometeu caboclo, aquele que vive “pagando os pecados do homem” ou tem uma mente depositária do sofrimento do mundo. Assim como o dramaturgo, Guzinski também brincou com fogo durante mais de 30 anos de vida dedicados ao teatro e, pelo jeito, ainda não cansou de correr riscos.

O mais recente é o Grupo Experimental de Teatro (GET), mantido pela Secretaria da Cultura de Porto Alegre e há um ano em atividade. Seus integrantes estão quase prontos para mostrar seu primeiro trabalho, que vai trazer o universo de Jorge Andrade de volta ao primeiro plano. A pré-estreia do dia 14 de dezembro, na sala Álvaro Moreyra, foi só uma amostra do que vem por aí. O espetáculo volta a cartaz de 28 a 31 de janeiro, em temporada na mesma sala.

O grupo, formado por oito atores, andou envolvido durante os últimos dois meses com os ensaios de Para Dentro do Labirinto – Experimento sobre a Obra de Jorge Andrade. A equipe realizou três encontros semanais repletos de pesquisa e treinamentos inspirados no Teatro Antropológico, outro dos ideais de Guzinski. A encenação resume três textos, Pedreira das Almas (1958), Vereda da Salvação (1964) e As Confrarias (1969), além de fragmentos de Labirinto (Ed. Manole, reedição, 2009), o romance autobiográfico que o autor escreveu em 1969.

O diretor adianta que sua síntese cênica vai privilegiar as personagens femininas dos três textos andradinos, ou seja, Marta, Dolor, Mariana e Urbana. O autor também estará presente como personagem, declarando trechos do livro em que busca compreender seu processo de criação e fala de seus sonhos: “Gostaria de abrir portas, ver como os outros vivem, o que têm para dizer, o que têm e o que gostariam de ter”, escreve. Em determinada passagem, Andrade narra seu encontro com o escritor Erico Verissimo, em Porto Alegre, no tempo em que atuou como jornalista, no final dos anos 60. Ele publicou vários perfis e entrevistas com personalidades na revista Realidade.

Vereda da Salvação, a mais conhecida da trilogia, é baseada em fato real ocorrido em Minas Gerais, em 1955, sobre uma igreja composta por fanáticos supostamente endemoniados de uma religião que mata crianças em nome da fé. Reúne homens do campo, durante uma semana de penitência em que tentam encontrar conforto e trocar o sofrimento pela palavra divina. Pedreira das Almas se passa durante o esgotamento da exploração de ouro, na Revolução Liberal de 1842, em Minas Gerais. Reúne personagens sem trabalho que tentam, mas não conseguem, deixar o meio rural em busca de uma vida melhor na cidade. Nunca encenada, As Confrarias fala de segregação durante a Inconfidência Mineira, em 1789. Mostra uma mãe que tenta enterrar seu filho ator, mas não é aceita por nenhuma das sociedades eclesiásticas que procura.

Fragmentos dos textos fizeram parte da audição que selecionou alguns dos integrantes do Grupo Experimental de Teatro, realizada em setembro de 2009. Cerca de 20 atores e atrizes criaram uma performance com base na leitura das três peças do dramaturgo. “A maioria deles nunca tinha ouvido falar de Jorge Andrade, mas hoje todos estão apaixonados”, comenta.

A proposta central do grupo dirigido por Guzinski é quebrar a lógica do ator ao dar suas falas, ampliando e modificando suas possibilidades. “Trabalhamos a questão de como dizer o texto, pois hoje em dia se valoriza muito a linha corporal do ator. Na minha avaliação, falta preparação vocal”, destaca o diretor, acompanhado por Amália Ceola, Dinorah Araújo, Fábio Castilhos, Gabriel Bolzan Motta, Giovanna Zottis, Mariana Vellinho, Luzia Ainhoren Meimes e Patrícia Gatteli Fernandes. Fábio e Giovanna são integrantes do Grupo Trilho, do Grêmio Esportivo Ferrinho, do bairro Humaitá. Eles e Mariana integram o GET desde o primeiro módulo.
Guzinski lembra que o grupo experimental foi lançado no dia 27 de outubro de 2008, idealizado em parceria com o então coordenador de artes cênicas do município, Luiz Paulo Vasconcellos.

A vontade era dar continuidade a uma proposta de trabalho lançada em 1992, chamada Usina do Trabalho do Ator. Antes de se transformar em um grupo teatral independente, a usina era um projeto de pesquisa mantido pela Prefeitura de Porto Alegre que, então, já reunia nomes como dos diretores Gilberto Icle, Celina Alcântara e Ciça Reckziegel, além do próprio Guzinski. Outra inspiração foi o Grupo Experimental de Dança, do coreógrafo Airton Tomazzoni, prestes a entrar em seu terceiro ano de atividades e revelando-se uma experiência bem-sucedida. A diretriz básica do grupo de teatro é contemplar aprimoramento de técnicas de atuação para atores profissionais com mais ou menos experiência.

A aula inaugural foi ministrada por Vasconcellos, que abordou o tema A Palavra no Corpo do Ator. Durante novembro e dezembro, os diretores Matteo Belli, Nair D’Agostini e Mauricio Guzinski desenvolveram o módulo de uso cênico da palavra. Foram cinco horas por dia. A Prática dos Cinco Ritmos, criada pela coreógrafa e professora do Actor’s Studio, Gabrielle Roth, foi desenvolvida por Guzinski, que assimilou o treinamento em cursos que realizou na Argentina e nos Estados Unidos. Assim como as técnicas de Belli e Nair, a de Guzinski também integrou as atividades do segundo módulo do GET. Em um dos ensaios realizados em novembro, os exercícios formaram uma base para introduzir o elenco aos fanáticos religiosos de Vereda da Salvação. “Quanto mais eu me entrego, mais energia eu ganho”, diz o diretor, conduzindo os atores, com um ar zen, por um universo que penetra no caos e chega à alquimia.

O segundo módulo do Grupo Experimental de Teatro começou a ser desenvolvido em agosto de 2009, através do seminário Teatro, a Arte do Ator. Em dois turnos, foi apresentada uma síntese das técnicas ensinadas pelo trio de professores e conteúdos que seriam cobrados na audição posterior, em que os candidatos, além das três peças, ainda tiveram de realizar cenicamente a explicação de um filme do qual não eram capazes de entender uma única palavra. Dinorah Araújo escolheu As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, do alemão Rainer Werner Fassbinder. Atriz de espetáculos como A Traça Biblió e O Poeta, com mais de 20 anos de carreira, anda nas nuvens com as experiências novas e com a riqueza da dramaturgia escolhida pelo GET. “Sempre brinco com os amigos que o Maurício é um sonho de consumo, cultural e intelectual. Ele é criterioso, trabalha muito, é extremamente disciplinado, tem conhecimento, é democrático e generoso. Nem todo mundo é assim e é muito difícil um diretor reunir todas essas qualidades”, elogia.

Integrante do GET desde o começo, a atriz Mariana Vel­linho procurava um novo caminho depois de quatro anos de experiência no grupo Depósito de Teatro. “Eu nunca quis ser uma atriz avulsa, sempre busquei ter um tipo de relacionamento em que se pensa em pesquisa e continuidade, pois é assim que o artista cresce”, comenta. Ela conta que se sentiu atraída pela proposta cênica do trabalho e gostou da intensidade da carga horária e da possibilidade de estar em constante exercício. “Às vezes, é necessário cansar o corpo”, destaca.

Duas vezes premiada com o Tibicuera de atriz coadjuvante, pelas peças Do Outro Lado da Cerca (2001) e A Princesinha Fedorenta (2007), ambas dirigidas por Fernando Ochôa, Mariana elogia o universo de Jorge Andrade. Conhecia-o apenas da montagem de Vereda da Salvação que Roberto Oliveira dirigiu com alunos do Depósito em 2000. “Ele escreveu a maioria das peças nos anos 50 e 60, mas acho ele muito atual. Muita coisa me chama a atenção, sua sensibilidade, o fato de estar muito atento ao que acontecia ao redor dele, a força da maternidade, a religiosidade, o aspecto político e a disparidade social”, argumenta a atriz.

Para delinear os personagens que estão em cena, o grupo procurou – e encontrou – semelhanças entre os tipos de Jorge Andrade e as expressões das pessoas fotografadas por Sebastião Salgado. Na sala que o grupo ocupou no último andar do prédio da Companhia de Arte, no centro de Porto Alegre, um varal repleto de recortes e cópias xerox de imagens do fotógrafo foi estendido para motivar os atores a encontrar a voz interior. Nele, também foram expostas reproduções da Pietá, de Michelangelo, e pinturas de Portinari. Mais dois artistas se integraram ao grupo nas duas últimas semanas de ensaios: os músicos Gabriel Gorski e Mariel Bolzan Motta aceitaram participar, como convidados, das apresentações pirofrágicas de Para Dentro do Labirinto.

Guzinski nutre ligeira preferência pelas peças de Andrade que giram em torno do homem libertário, que abordam questões sociais. Sua carreira como encenador, que inclui espetáculos como Dona Possança e Macbeth, foi fortemente influenciada pelo dramaturgo. Vereda da Salvação é uma velha conhecida e faz parte dos fios do labirinto que Guzinski teceu ao longo de sua trajetória, desde 1978, quando ele encenou a peça no então muito ativo Círculo Operário de Porto Alegre como resultado de um curso livre de teatro.

Foi no tempo em que trabalhava assiduamente como ator, bem antes de ganhar o Brasil com o sucesso da peça Antonio Chimango (1985), de estudar com Eugenio Barba, de frequentar o Odin Theatret na Dinamarca e de se sentir inteiro em cena ao trabalhar com o grupo Lume, de Campinas (SP). O Grupo Pés na Terra, dirigido pelo encenador e que surgiu em 1979 com a montagem do Manifesto Comunista de Marx e Engels, teria uma carreira marcada pelo tom contestador e pela pesquisa das raízes históricas do Rio Grande do Sul.

     
 
 
     
 
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